Uma contratação de guincho no valor de R$ 900,00 está no centro de uma investigação em Mauá da Serra. Enquanto o relatório final de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aponta pagamento sem comprovação suficiente da execução do serviço e questiona os procedimentos administrativos, o prefeito Givanildo Lopes, o Giva, afirma que o transporte aconteceu e apresenta mensagens e imagens que, segundo ele, demonstram a viagem.
A reportagem analisou o relatório e ouviu o prefeito, que contesta a declaração do vereador conhecido como Belinati de que o serviço nunca foi realizado.
O pedido de abertura da CPI foi protocolado em 2 de março de 2026 pelos vereadores Marcio Dias de Oliveira, Leonardo Wellington de Oliveira e Suzelaine Cristina de Oliveira Bonfim. A instauração foi aprovada por unanimidade pelo plenário em 9 de março. Os três integraram a comissão, respectivamente como presidente, relator e membro.
A investigação examinou pagamentos à empresa CD – Guincho e Sucatas, cujo titular mantém relacionamento afetivo com a secretária municipal de Saúde, Cleudete Machado de Oliveira.
Em declaração a reportagem televisiva, Belinati afirmou que a secretária contratou o guincho do próprio esposo e sustentou que o transporte até Maringá não aconteceu. “Esse serviço nunca aconteceu. E aqui nós não estamos mais falando de suposições, nós estamos falando de fato”, declarou.
O relatório, entretanto, faz uma distinção: conclui que o pagamento foi realizado sem comprovação da prestação do serviço. A comissão reúne elementos para questionar o transporte, mas falta de comprovação e comprovação de inexistência não são a mesma coisa.
Sobre o relacionamento, o documento registra que não foram comprovados casamento nem união estável. A CPI reconheceu o vínculo afetivo e questionou o fato de a própria secretária ter atestado o serviço da empresa, sem comunicar a relação ou se declarar impedida. Assim, a referência ao empresário como “esposo” não está comprovada no relatório, embora permaneça o questionamento sobre conflito de interesses.
Prefeito apresenta sequência dos acontecimentos
Na entrevista ao Canal HP, Giva afirmou que o Citroën C3 apresentou problemas no motor no início de junho de 2025. Segundo ele, o servidor Diogo encaminhou um vídeo à concessionária em 2 de junho e recebeu orientação para enviar o veículo por guincho. “A concessionária pede para que o carro seja enviado de guincho. Não era para ir rodando”, afirmou o prefeito.
De acordo com Giva, o acionamento do prestador foi feito por Moacir, conhecido como Mortinho, e o transporte ocorreu em 6 de junho. A data coincide com a entrada do carro na concessionária registrada no relatório da CPI e com a versão apresentada pelo proprietário do guincho em depoimento.
O prefeito também questionou a ausência de uma oitiva de Diogo, a quem atribui a condução dos contatos com a concessionária e o acompanhamento da troca do motor “Quem combinou tudo, que tratou com a concessionária, que fez o sistema da troca de motor, foi o Diogo”, disse.
Para sustentar sua versão, Giva apresentou uma fotografia que, segundo ele, mostra o veículo sendo descarregado na concessionária, além de uma conversa de 30 de junho na qual o prestador cobra o município e faz referência à entrega em 6 de junho.
A fotografia já havia sido mencionada durante a CPI. No relatório, porém, a comissão questionou a ausência de data verificável na imagem. O prefeito sustenta que as conversas originais permitem contextualizar o registro e afirma que os aparelhos estão disponíveis para perícia.
Mensagem menciona carro que “chegou de guincho”
Outro elemento destacado por Giva é uma mensagem atribuída a um funcionário da concessionária, datada de 20 de junho, com referência ao C3 que “chegou de guincho”. “O funcionário da concessionária relata que o carro chegou de guincho. Então, como que não foi prestado o serviço?”, questionou.
Giva afirmou ainda que obteve da Polícia Rodoviária Federal uma informação sobre a passagem do guincho por Marialva, em direção a Maringá, em 6 de junho. Segundo ele, o registro reforça a versão do deslocamento. A identificação do carro transportado, contudo, depende do conteúdo e do alcance desse registro.
Sobre o problema mecânico, o próprio relatório confirma que houve substituição do motor em garantia. O prefeito disse que uma mensagem de 12 de agosto avisou que o carro estava pronto. A documentação citada pela comissão registra a retirada em 19 de agosto de 2025.
Segundo Giva, o veículo retornou rodando, sem cobrança de guincho na volta.
Relatório questiona datas e procedimentos
A explicação sobre a realização do transporte não encerra todos os apontamentos da CPI. O relatório registra que o veículo entrou na concessionária em 6 de junho, enquanto o empenho de R$ 900 foi emitido em 4 de julho. A nota fiscal declara prestação em 10 de julho, e o pagamento ocorreu em 21 de julho.
Na versão do prefeito, a cobrança posterior explica a sequência administrativa. Para a comissão, entretanto, permanecem problemas na documentação, incluindo a divergência da data declarada na nota e o empenho posterior ao serviço alegado.
A CPI também apontou ausência de processo formal de contratação direta e questionou o atesto realizado pela secretária. Não foi comprovado sobrepreço.
O relatório propõe encaminhamentos ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas e ao Executivo para apuração das responsabilidades. Suas conclusões não representam condenação judicial.
Giva criticou a exposição dos envolvidos e afirmou esperar esclarecimentos e eventual retratação diante dos elementos apresentados pela prefeitura.
A reportagem entrou em contato com o vereador conhecido como Belinati para que comentasse os pontos levantados e as diferenças entre sua declaração e o relatório da CPI, mas não houve retorno até a publicação.








